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Você toca um acorde e ouve aquele som metálico e irritante? O famoso trastejamento. Imediatamente, a pergunta surge: será que o trastejamento sempre indica necessidade de regulagem? A resposta curta e direta é não. Embora seja um sintoma clássico de um instrumento desregulado, esse ruído pode ter diversas outras causas, muitas delas mais simples de resolver do que você imagina. Entender a origem do problema é o primeiro passo para economizar tempo, dinheiro e evitar ajustes desnecessários no seu precioso instrumento.
Neste guia completo, vamos desmistificar o trastejamento, explorar suas múltiplas causas — desde a sua técnica de tocar até as condições do clima — e mostrar um passo a passo para você diagnosticar a real necessidade de uma regulagem profissional.
O trastejamento (ou fret buzz, em inglês) é o som de zumbido ou vibração metálica que ocorre quando uma corda, ao vibrar, toca levemente em um ou mais trastes à frente daquele que está sendo pressionado. Em vez de um som limpo e sustentado, você ouve uma interferência que pode, em casos graves, até mesmo “matar” a nota. Esse fenômeno é uma questão de física pura: o arco de vibração da corda está sendo interrompido por um obstáculo indevido.
Para que uma nota soe perfeitamente, a corda precisa de espaço livre para vibrar entre a pestana (ou o traste pressionado) e a ponte. Qualquer elemento que invada esse espaço causa o trastejamento. Segundo um levantamento da revista Premier Guitar de 2022, mais de 60% dos problemas relatados por guitarristas a luthiers envolvem algum tipo de trastejamento, tornando-o uma das queixas mais comuns no mundo da música.
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⚡ Dica: Nem todo trastejamento é ouvido através do amplificador. Muitas vezes, um leve zumbido acústico é normal, especialmente com uma ação de cordas muito baixa. O problema real é quando o som afeta o sustain ou é captado pelo sistema elétrico.
Muitos músicos, especialmente iniciantes, buscam a utopia de um instrumento com zero trastejamento em qualquer situação. No entanto, isso nem sempre é desejável ou prático. Uma regulagem extremamente “limpa” geralmente exige uma ação (altura das cordas) mais alta, o que pode dificultar a tocabilidade e a execução de técnicas mais rápidas. Existe um equilíbrio delicado entre conforto e um som 100% livre de zumbidos.
A questão principal é: o trastejamento está afetando sua música? Um leve buzz que só é perceptível quando você toca com muita força e com o instrumento desplugado pode ser perfeitamente aceitável. Muitos músicos profissionais, como Stevie Ray Vaughan, eram conhecidos por usar uma ação relativamente baixa que, acusticamente, produzia um certo nível de trastejamento, mas que se tornava parte da sua sonoridade agressiva e cheia de ataque quando amplificada. O problema real surge quando o buzz é audível no amplificador, encurta a sustentação da nota ou causa notas “mudas”.
Antes de correr para o luthier, é crucial investigar algumas causas comuns e mais simples para o trastejamento. Muitas vezes, a solução está nas suas mãos (literalmente) e não envolve nenhuma ferramenta. De acordo com um estudo de 2023 sobre manutenção de instrumentos de cordas, cerca de 35% dos casos de trastejamento leve são resolvidos com ajustes na técnica do músico ou na troca de componentes básicos, como as cordas.
Sua forma de tocar tem um impacto direto no trastejamento. Uma “pegada” muito forte, com palhetadas ou dedilhados agressivos, faz com que a corda vibre com uma amplitude maior, aumentando a chance de ela atingir os trastes. Se o buzz aparece apenas quando você ataca as cordas com muita força, o problema pode não estar no instrumento, mas na sua dinâmica.
Exemplo Prático: Um músico que toca principalmente bases de rock com palhetadas fortes pode notar trastejamento na corda Mi mais grave (o “mizão”). No entanto, ao tocar um arpejo suave, o som sai limpo. Isso indica que a regulagem está no limite para a sua técnica mais agressiva. A solução pode ser suavizar o ataque ou, se a pegada for parte do seu estilo, aí sim optar por uma leve subida na ação das cordas.
As cordas não duram para sempre. Com o tempo, elas perdem a elasticidade, o brilho e, mais importante, a uniformidade de sua massa. Cordas velhas podem desenvolver pontos onde vibram de forma irregular, causando trastejamento. Além disso, a troca de calibre (ex: de 0.010 para 0.009) sem um ajuste no tensor pode alterar a curvatura do braço e gerar buzz.
👉 Evite: Diagnosticar problemas de regulagem com um encordoamento que está no instrumento há mais de 3 meses de uso constante. Um jogo novo de cordas é um pré-requisito para qualquer avaliação precisa.
Seu instrumento é feito principalmente de madeira, um material higroscópico que absorve e libera umidade do ar. Em dias muito úmidos, a madeira do braço tende a inchar, podendo aumentar a curvatura (relevo) e eliminar o trastejamento. Já em dias muito secos, o braço pode se contrair e ficar reto ou até com uma curvatura para trás (back-bow), causando um trastejamento severo, principalmente nas primeiras casas. Um relatório da Taylor Guitars de 2021 aponta que mais de 50% dos reparos em garantia estão relacionados a problemas decorrentes de falta de controle de umidade.
Exemplo Prático: Você mora em uma cidade litorânea (úmida) e viaja para uma região serrana e seca no inverno. É quase certo que seu violão ou guitarra sentirá a mudança e poderá começar a trastejar. Muitas vezes, basta esperar o instrumento aclimatar por um ou dois dias, ou usar um umidificador de case, para o problema desaparecer sem a necessidade de uma regulagem.
Se você já descartou as causas mais simples e o zumbido persiste, é hora de investigar a regulagem do instrumento. Uma regulagem completa envolve o ajuste fino de três elementos principais: a curvatura do braço (tensor), a altura das cordas (ação) na ponte e na pestana, e a altura dos trastes (nivelamento). Se o trastejamento sempre indica necessidade de regulagem em algum destes pontos, a resposta é sim, mas qual deles?
Este é um teste simples para verificar se o tensor precisa de ajuste, uma das causas mais comuns de trastejamento que necessita de regulagem.
| Sintoma do Trastejamento | Causa Provável | Solução Rápida / Teste | Precisa de Luthier? |
|---|---|---|---|
| Trasteja apenas nas primeiras casas (1-7) | Braço muito reto ou com curvatura negativa (back-bow) | Checar a curvatura do braço (conforme How-To acima) | Sim, para ajustar o tensor |
| Trasteja nas casas do meio da escala | Braço com muito relevo (curvatura excessiva) e ação muito baixa na ponte | Aumentar a altura dos carrinhos/rastilho | Provavelmente sim |
| Trasteja apenas nas casas mais agudas (12 em diante) | Ângulo do braço incorreto ou ponte muito baixa | Subir a altura da ponte | Sim, se a ação ficar desconfortável |
| Trasteja em apenas uma ou duas notas específicas | Traste alto ou desnivelado | Passar um cartão de crédito sobre 3 trastes na região. Se o cartão “dançar”, há um traste alto. | Sim, para nivelamento de trastes |
| Trasteja quando a corda é tocada solta | Pestana (nut) com a fenda muito funda | Colocar um pedacinho de papel na fenda para testar. Se o som limpar, o problema é na pestana. | Sim, para reparo ou troca da pestana |
| Trasteja em todas as cordas e casas ao tocar normal | Ação geral das cordas muito baixa | Medir a altura da 6ª corda na 12ª casa. O ideal varia, mas algo abaixo de 2.0mm pode trastejar. | Sim, para uma regulagem completa |
Na ânsia de resolver o problema, muitos músicos acabam piorando a situação. Evitar esses erros é fundamental para a saúde do seu instrumento.
Este é o erro mais perigoso. Como vimos, apertar o tensor retifica o braço. Se o seu problema de trastejamento for causado por um braço já reto demais, apertar o tensor só irá agravar o quadro, podendo até danificar permanentemente o braço ou o próprio tensor. O tensor serve exclusivamente para ajustar a curvatura do braço, não a altura geral das cordas.
O nivelamento de trastes (retífica) é um trabalho de altíssima precisão que exige ferramentas específicas (limas, tacos com raio, réguas de precisão). Tentar lixar um único traste em casa quase sempre resulta em um desastre, criando pontos baixos e tornando o problema ainda pior. Um estudo de 2020 da Luthiers Mercantile International mostrou que reparos em trabalhos de trastes malfeitos custam, em média, três vezes mais do que o serviço original de nivelamento.
Embora seja verdade que um leve buzz pode não ser captado, ele ainda está lá. Essa interferência sutil da corda com o traste rouba energia da vibração, o que se traduz em menor sustain e, em alguns casos, pode afetar os harmônicos e a clareza da nota. O que parece inofensivo pode estar limitando o potencial sonoro do seu instrumento.
Prevenir é sempre melhor do que remediar. Adotar algumas práticas simples pode manter seu instrumento estável e livre de trastejamento por muito mais tempo.
Geralmente, trastejamento concentrado entre as casas 1 e 7 é um sintoma clássico de um braço muito reto ou com curvatura para trás (back-bow). Isso significa que o tensor pode estar muito apertado para a tensão das cordas, não permitindo o “relevo” necessário para a corda vibrar livremente nessa região.
O teste mais simples é o que descrevemos na seção “How-To” acima: usar a própria corda como uma régua para verificar a curvatura. Um braço empenado de forma mais complexa (como uma torção) é mais difícil de diagnosticar e geralmente causa trastejamento em áreas inconsistentes da escala. Neste caso, a avaliação de um luthier é indispensável.
Uma queda pode causar uma variedade de problemas, desde um simples desalinhamento do braço no pocket (em guitarras parafusadas) até danos estruturais mais sérios. Não tente ajustar nada. Leve-o imediatamente a um profissional para uma avaliação completa. Tentar regular um instrumento que pode ter um dano estrutural é arriscado.
Sim, é relativamente comum. O instrumento viaja do fabricante para o distribuidor e para a loja, passando por diversas variações de clima. A regulagem de fábrica é apenas um ponto de partida. A maioria das lojas de qualidade oferece uma regulagem inicial gratuita ou recomenda que o cliente leve a um luthier para um ajuste fino de acordo com suas preferências e o clima local.
Então, o trastejamento sempre indica necessidade de regulagem? Definitivamente não. Ele é um sinal de alerta de que algo está interferindo na vibração da corda. Conforme vimos, essa interferência pode vir da sua própria técnica, de cordas gastas, de mudanças climáticas ou, sim, de um desajuste na geometria do instrumento. A chave é aprender a investigar as causas mais simples primeiro, usando a lógica e a observação.
Ao entender os princípios básicos de como seu instrumento funciona, você se torna um músico mais consciente e preparado. Saber quando um problema é simples de resolver e quando é hora de procurar um profissional qualificado não só vai garantir que seu instrumento esteja sempre no seu melhor, mas também vai poupar seu bolso e sua paz de espírito. Da próxima vez que ouvir aquele zumbido, respire fundo, siga os passos deste guia e ouça o que seu instrumento está tentando lhe dizer.